GRAVIDADE

É sério. Tanto quanto essa força antes do fato. Ou da Terra sobre os nossos ossos. Como fúria, maremoto. Que arranca gramas do nosso terraço.

É grave. Tanto quanto essa febre antes da explosão. Erosão. Ou das melhores intenções sobre a nossa pele. Como beijo, rastro. Que ocupa parte do nosso espaço.

É muito. Tanto quanto esse silêncio antes do tempo. Ou do medo que vence pelo cansaço. Como certo, errado. Que nada pode mudar os fatos.

 

É festa. Tanto quanto esse burburinho todo aqui dentro. Ou do grito acordando toda a vizinhança. Como banda, esperança. Que toca sem partitura ou cobrança.

 

É lindo. Tanto quanto tudo aquilo que não pode ser descrito. Ou do estribilho que insiste na percepção. Como medida, balão.  Que enche os olhos pelo espanto.

 

É tudo isso. Tanto quanto essa gravidade que insiste em se fazer presente. Ou da gravidez que me fez completamente. Ser ar, você e agora ela.

 



Escrito por Gabriela Kimura às 18h01
[] [envie esta mensagem
] []





VEJO VOCÊ POR LÁ

1ª chamada. Lançamento imperdível da antologia Blablablogue, Crônicas e Confissões, da novíssima editora Terracota. Organização de Nelson de Oliveira e a participação de gente muito, muito bacana.

 

 



Escrito por Gabriela Kimura às 12h41
[] [envie esta mensagem
] []





PERFIL LITERÁRIO

Já está no ar a entrevista que eu dei para a Rádio Unesp, no programa Perfil Literário. Para ouvir, basta clicar http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil%20liter%A0rio/65%20PL_GABRIELA%20KIMURA%20OK.mp3

 

 

E para quem quiser conferir o menu de entrevistados: http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil%20liter%A0rio/

 



Escrito por Gabriela Kimura às 11h49
[] [envie esta mensagem
] []





ZUNÁI

Já está na rede a 17ª edição da revista eletrônica Zunái (editada por Cláudio Daniel e Rodrigo Leão + design de Ana Peluso). Entre tantas coisas bacanas, você pode ver três textos meus por lá, graças ao convite do sempre querido Claudinei Vieira. Confira aqui: http://www.revistazunai.com/contos/gabriela_kimura_a_carta_na_gaveta.htm



Escrito por Gabriela Kimura às 20h27
[] [envie esta mensagem
] []





LIÇÃO DE CASA

 

Eu gosto mesmo quando você rasga o verbo e despedaça todas as palavras sem nenhuma cerimônia. E desconstrói cada uma das minhas frases gramaticalmente irretocáveis para fazer poema concreto. Mesmo quando insiste em levantar a  saia e descer a  minha calcinha, consegue ainda ler nas entrelinhas.

 

Foi você de fato que me ensinou a jogar com as palavras, lembra? Fez trovejar paradoxos, algumas antíteses sacanas, outros tantos hiatos estridentes. Pois os guardei todos entre os dentes. Pra fincar assim na tua musculatura. Que é pra te mostrar que eu aprendo rápido. Minha digestão desarmonizando a tua biologia. E que agora te faz tremer com tanta verborragia.

 

Aprendi as tais elipses. E já sou capaz de conjugar qualquer tipo de verbo. Pra fazer sacanagem com a tua língua. Para embolar o teu português meio sujo, meio franco, meio incrédulo. Há muito abolimos os provérbios e abominamos as vãs filosofias. Prosa fraca, raso verso.

 

É. Eu quero mesmo é matar a tua língua.



Escrito por Gabriela Kimura às 17h52
[] [envie esta mensagem
] []





JONAS E A BALEIA

Para Floquinho

 

 

Lembro de muitas cenas distintas: um moleque com uma franja na testa, a cara redonda na porta perguntando se alguém tinha visto seu bongô. Um bongô que foi do seu avô. Todo mundo riu e achou aquela figura engraçada. O sotaque mais arranhado do mundo, denunciando o que eu já previa. O cara era carioca.

 

Sim, eu e os meus pré-conceitos. Folgado, pensei. E era. Viu-me um dia com o violão na mão (sim, na época eu vivia com um violão a tiracolo) e pediu: “toca aí Mano Velho, da Marisa Monte”. Oi? Não conheço essa música, respondi. “Conhece sim, já te vi tocando”. Depois de muito tutano, fui me tocar que a música que o garoto pedia era “Sobre o tempo”, do Pato Fu. Rimos muito aquele dia.

 

Mas voltemos ao folgado. Conheci esse cara num encontro de comunicação. Um frio de doer, em Florianópolis. Todo mundo querendo conhecer quase todo mundo. E ali mesmo, faltando quase dois meses para o meu aniversário (quem me conhece sabe que espero o ano inteiro por essa data), decidi que iria fazer uma festa em Campinas. Chamei o cara e seus dois amigos. E num é que eles apareceram? De mala e cuia, bongô, violão, cobertas, instrumentos. Meu pequeno apartamento de estudante virou, de repente, uma imensa república.

 

Dali para frente, nos tornamos amigos. Ele sempre que me via ou falava comigo ao telefone, adorava me irritar dizendo que o Papa era carioca, que o Romário era carioca e como as coisas boas ficavam sob e sobre o Cristo. Deus-me-livre, eu dizia.

 

Um dia, reclamei do preço da água de coco. Era o tipo de “deixa” que ele agarrava com as duas mãos. “Aqui no Rrrrrrrio é muito barato. Temosssssss água de coco quase de graça”. Retruquei, desdenhei. De manhã, o cara apareceu numa Saveiro quadrada e lotada de coco na porta da minha casa. O maluco dirigiu do Rio até Campinas só para me provar que estava certo. Descarregou a mercadoria em casa e ainda me deixou na faculdade. Depois, foi embora.

 

Essa e outras histórias faziam da nossa convivência, algo irritantemente delicioso. Cuidava do meu apartamento, de mim, mesmo de longe. Insistia em chamar a Sushi, minha tartaruga, de Susi. Sempre.

 

Um dia me ligou dizendo que queria que eu fosse madrinha do seu casamento. Naquele tempo ele sabia que eu torcia o nariz para esse tipo de cerimônia. Aceitei. A última vez que o vi foi aqui mesmo em São Paulo. Nessa época acho que eu ainda estava em BH. Almoçamos numa cantina e rimos pra cacete.

 

Isso tem uns 4 anos. Esse é o tempo que deixamos a correria tomar conta da gente. E realmente acreditamos que algumas coisas e pessoas são para sempre. Não sou de fazer sensacionalismo e tampouco gosto de homenagens. É que algumas histórias, quando são boas, devem ser compartilhadas. Temos muitas delas. O casamento dele não aconteceu. A vida tem dessas coisas. Alguns amores acabam antes de se tornarem chatos e penosos. Ele e ela, acredito, foram grandes amigos.

 

E foi ela quem pediu que me avisassem que o garoto carioca, folgado e com todos os “erres” entre os dentes, foi tocar bongô em outras bandas navegando, quem sabe, em cima de uma grande baleia branca. Tchau muleeeeeeeeeeeeque.



Escrito por Gabriela Kimura às 14h37
[] [envie esta mensagem
] []





PEIXE

– Pula, logo, Marcinho!

 

E Marcinho não ia. Tinha medo, o cagão. Marcinho, o leproso da sala, o remelento, filhinho da mamãe, o cagüeta.

 

Fácil mesmo era limpar as narinas nas mangas da camisa amarela, flanelinha vagabunda, comentavam as mães. Mas ele não se importava com os risinhos maternos nem mesmo com o deboche insistente dos outros meninos.

 

Vento nos cabelos com medo de cloro e bactéria. A olhar, tristonho, água e azulejo, mãos e pés envelhecidos nos corpos das crianças que se debatiam histéricas.

 

Marcinho queria mesmo era voar. Que de ar tinha ânsia assim desenfreada. Em nuvem carregada, quem sabe tripudiar sobre os sonhos dos pequenos. Ou fugir num pé-de-vento, peixe-relâmpago rabiscando no céu uma cicatriz bem no ventre daquela imensidão que insistia em ser tão bela.

 

Que ele assim menino sem escamas, frágil que doía, de sonho e insistência já entendia como ninguém. A escalar, degrau por degrau, as alturas, que mesmo tal candura tende, tímida, ao exibicionismo.

 

– Olha lá, é o Marcinho!

– Mas o que é que esse retardado está fazendo ali?

– Desce daí, ô cagão!

 

E, pela primeira vez, Marcinho voou.

 

 

 

Ilustração: Stocker



Escrito por Gabriela Kimura às 14h52
[] [envie esta mensagem
] []





VOCÊ TAMBÉM ME ENCONTRA POR LÁ

http://www.obinoculo.com.br

Escrito por Gabriela Kimura às 12h11
[] [envie esta mensagem
] []





Conto na Continuum

Amigos,

Tem um conto meu lá na edição on-line de aniversário da revista Continuum do Itaú Cultural: http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2720&cd_materia=572



Escrito por Gabriela Kimura às 14h40
[] [envie esta mensagem
] []





DOIS

Para mim e para você.

 

 

Não vou dizer que é fácil. Dançar dois pra lá, dois pra cá. Também não vou dizer que é tão complicado a ponto não saber que pisar na pontinha dos dedos alheios é capaz de fazer o mundo desmoronar inteiro. A dor que parece não cessar.

 

Porque dois anos é tempo que começou agorinha mesmo, ontem, anteontem. Quando chegava na bagagem mais afeto, pares de sapatos velhos, geladeira, estante. Um monte de será, talvez, daqui por diante. Certeza que vai durar.

 

Mas volto a dizer que não é fácil ver tanto papel espalhado pela pequena–casa inteira. Olhar a bagunça da mesma geladeira que sonha em ser mais nova, mais ativa, mais frígida, menos calórica. Sim, é difícil pra cacete ver aqueles sonhos gigantes brincando de voar pelo quintal.

 

Difícil é também agüentar meus humores. Quem me conhece que me compre. Sem direito a devolução. Com a minha boca afiada e duas mil certezas na mira de quem disser o contrário, fazer um pequeno gesto ou comentário. Não, ninguém disse que ia ser fácil.

 

Nem mesmo quando a gente acorda todo dia com aquela cara conhecida no travesseiro ao lado. E acha graça, acha riso, acha que a vida inteira teve o cuidado de ombro ainda quentinho, de remédio para gripe, de casaco e guarda-chuva, de chá de limão e gengibre, de meia nos pés no meio da noite, da janela que se fecha enquanto o frio quer assombrar seu sono, da luz que fica acesa lá no canto.

 

O amor é quase sempre um espanto. Um susto. Uma aparição. E é capaz de separar famílias inteiras. O amor, essa peste insistente, não bate bem da moleira. Não é que pega a gente num repente e nos faz desafinar alegremente pelos cômodos da casa, pelas ruas, pela estrada?  Febre e choradeira. Gargalhada e tremedeira. Oito e oitenta. Você e eu.

 

* Hoje comemoro (sim, comemoro!) dois anos de um casamento nada fácil, mas com toda a felicidade que o amor de um certo Paulo Stocker é capaz de me dar.



Escrito por Gabriela Kimura às 12h12
[] [envie esta mensagem
] []





RANCOR

Não sou seu pai nem a revista molhada sobre a banqueta do seu banheiro. Não quero ser o cinzeiro que mobília a sua casa na espera de visitas. Não tenho mais paciência para carregar tanta culpa daqueles tempos que você insiste em dizer que eram melhores do que em hoje em dia. Que fique claro, como sempre foi a minha conduta, das minhas manias, dos meus rituais e, agora, da minha vida. Essa que você não entende. Entende? Que agora eu tenho fogão, panela quente e que meu afeto não é ausente. Mas é condimento do meu bem querer. De gaiolas nunca gostei. E, que eu saiba, nem você. Então me deixe viver. Assim no clichê dos sofás, das tardes com sexo, pipoca e risadas, da noite que quer acabar cedo, da preguiça dos lugares alheios, da minha idade avançada. Quero estar velhinha, chata, escondida. Quero escolher aonde vou, o horário de sair e entrar. Sabe... Ando com preguiça da mocidade, dessas atrocidades de “não-sei-bem-o-que”. Sim, já fiz tudo isso, mais o verso, inverso e não pretendo sujar os pratos que comi. Volto a dizer: o tempo é meu de direito. É certo. A minha paz depende daqueles que eu amo. Se não entende, não pretendo mesmo ser didática. O que não posso é fazer vendaval em casa, criar tempestades no meio da sala, alagar a cozinha. Isso eu não posso. Não insista. Em programa alheio, convidado não insulta o dono da casa. Nunca criei atalhos para quem eu sou. Respeite-me. Não sou mulher de recados, não me aborreça com suas verdades, com conclusões mal fundadas. Essa é uma rua errada. Não cause acidentes impensados, por favor. Desacelere e eu freio. Ninguém aqui quer atropelamentos, não é mesmo? Por enquanto o parque está fechado para reparos.

 



Escrito por Gabriela Kimura às 14h01
[] [envie esta mensagem
] []





“O que não posso é fazer vendaval em casa, criar tempestades no meio da sala, alagar a cozinha. Isso eu não posso.”

Talvez eu comece um novo conto assim. Ainda não sei. Meu tempo, acreditem, anda curto. Mais do que isso, estou com aqueles velhos e conhecidos problemas com a escrita. Muitas coisas sem grandes acertos. Momento para pesquisar e focar melhor naquilo que interessa. Desculpem-me pela ausência.



Escrito por Gabriela Kimura às 15h45
[] [envie esta mensagem
] []





QUANDO A TERRA DESAPARECER

Quando a terra desaparecer, talvez, quem sabe, nós não estejamos mais aqui. Eu sei, Alfredo, que você não acredita nestas coisas. Mas digo a você: não somos imunes a estas ações da natureza. Por isso insisto tanto nesta coisa que você chama de “fúria desenfreada”. A terra, meu caro, anda cheia até às tampas. E mesmo pessoas, como nós, correm o risco incômodo de sucumbir aos arroubos das enfermidades.

 

Sim, minha saúde está em perfeito estado. O que não está no eixo é essa sua cara aí perseguindo a gente o tempo todo. Você sabia que a Alice já reclama da vida? E ela tem apenas seis, seis anos! Algumas crianças nascem assim, com os olhinhos repletos de inconformidade. Lembra? Desde o peito até o bocejo.

 

Hoje sinto que os ânimos recomendam cautela. Mas quem tem o dom do recuo, da paciência completa? Veja se tem cabimento. Agora ela diz que chora de felicidade. Dessa intensidade eu não entendo. Nossa menina, um pequeno aparelho no máximo volume. Minha idade anda avançando e, se ainda me lembro, a sua também.

 

Penso que, bem lá no fundo, ela deve ter puxado algo de nós. Algo que perdemos na cruel velocidade do tempo. Sinto saudades da vontade de matar nossos desejos. Um a um. Como nas melhores batalhas. Sim, daria tudo para ver um horizonte sangrento. Mas você, Alfredo,  não deixa. E insiste em nos perseguir pelos corredores. Usando a pior das desculpas: esta doença que você insiste em deixar que mande na gente.

 

Alice daqui a pouco será uma mocinha. E com a fome de um batalhão deixará esta triste casa para sempre. Ficaremos neste silêncio? Não creio. Porque acredite: quando a terra desaparecer será por minha competência. A cerrar, com muito gosto, esses olhos que não querem reconhecer que estão mortos há muito tempo.

 



Escrito por Gabriela Kimura às 15h36
[] [envie esta mensagem
] []





Da série VARAIS

Papai me ensinou a rezar o terço. Freqüente. Dos doze aos quinze.

Não pago mais dízimos. Não acredito mais em preces. 

 

 

Ilustração: Paulo Stocker

Texto: Gabriela Kimura



Escrito por Gabriela Kimura às 14h13
[] [envie esta mensagem
] []





Da série VARAIS

Você, uma mitologia grega. Eu, um desastre ocidental.  

 

Ilustração: Paulo Stocker

Texto: Gabriela Kimura



Escrito por Gabriela Kimura às 13h31
[] [envie esta mensagem
] []