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RANCOR
Não sou seu pai nem a revista molhada sobre a banqueta do seu banheiro. Não quero ser o cinzeiro que mobília a sua casa na espera de visitas. Não tenho mais paciência para carregar tanta culpa daqueles tempos que você insiste em dizer que eram melhores do que em hoje em dia. Que fique claro, como sempre foi a minha conduta, das minhas manias, dos meus rituais e, agora, da minha vida. Essa que você não entende. Entende? Que agora eu tenho fogão, panela quente e que meu afeto não é ausente. Mas é condimento do meu bem querer. De gaiolas nunca gostei. E, que eu saiba, nem você. Então me deixe viver. Assim no clichê dos sofás, das tardes com sexo, pipoca e risadas, da noite que quer acabar cedo, da preguiça dos lugares alheios, da minha idade avançada. Quero estar velhinha, chata, escondida. Quero escolher aonde vou, o horário de sair e entrar. Sabe... Ando com preguiça da mocidade, dessas atrocidades de “não-sei-bem-o-que”. Sim, já fiz tudo isso, mais o verso, inverso e não pretendo sujar os pratos que comi. Volto a dizer: o tempo é meu de direito. É certo. A minha paz depende daqueles que eu amo. Se não entende, não pretendo mesmo ser didática. O que não posso é fazer vendaval em casa, criar tempestades no meio da sala, alagar a cozinha. Isso eu não posso. Não insista. Em programa alheio, convidado não insulta o dono da casa. Nunca criei atalhos para quem eu sou. Respeite-me. Não sou mulher de recados, não me aborreça com suas verdades, com conclusões mal fundadas. Essa é uma rua errada. Não cause acidentes impensados, por favor. Desacelere e eu freio. Ninguém aqui quer atropelamentos, não é mesmo? Por enquanto o parque está fechado para reparos.
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Gabriela Kimura
à s
14h01
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“O que não posso é fazer vendaval em casa, criar tempestades no meio da sala, alagar a cozinha. Isso eu não posso.”
Talvez eu comece um novo conto assim. Ainda não sei. Meu tempo, acreditem, anda curto. Mais do que isso, estou com aqueles velhos e conhecidos problemas com a escrita. Muitas coisas sem grandes acertos. Momento para pesquisar e focar melhor naquilo que interessa. Desculpem-me pela ausência.
Escrito por
Gabriela Kimura
à s
15h45
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QUANDO A TERRA DESAPARECER
Quando a terra desaparecer, talvez, quem sabe, nós não estejamos mais aqui. Eu sei, Alfredo, que você não acredita nestas coisas. Mas digo a você: não somos imunes a estas ações da natureza. Por isso insisto tanto nesta coisa que você chama de “fúria desenfreada”. A terra, meu caro, anda cheia até às tampas. E mesmo pessoas, como nós, correm o risco incômodo de sucumbir aos arroubos das enfermidades.
Sim, minha saúde está em perfeito estado. O que não está no eixo é essa sua cara aí perseguindo a gente o tempo todo. Você sabia que a Alice já reclama da vida? E ela tem apenas seis, seis anos! Algumas crianças nascem assim, com os olhinhos repletos de inconformidade. Lembra? Desde o peito até o bocejo.
Hoje sinto que os ânimos recomendam cautela. Mas quem tem o dom do recuo, da paciência completa? Veja se tem cabimento. Agora ela diz que chora de felicidade. Dessa intensidade eu não entendo. Nossa menina, um pequeno aparelho no máximo volume. Minha idade anda avançando e, se ainda me lembro, a sua também.
Penso que, bem lá no fundo, ela deve ter puxado algo de nós. Algo que perdemos na cruel velocidade do tempo. Sinto saudades da vontade de matar nossos desejos. Um a um. Como nas melhores batalhas. Sim, daria tudo para ver um horizonte sangrento. Mas você, Alfredo, não deixa. E insiste em nos perseguir pelos corredores. Usando a pior das desculpas: esta doença que você insiste em deixar que mande na gente.
Alice daqui a pouco será uma mocinha. E com a fome de um batalhão deixará esta triste casa para sempre. Ficaremos neste silêncio? Não creio. Porque acredite: quando a terra desaparecer será por minha competência. A cerrar, com muito gosto, esses olhos que não querem reconhecer que estão mortos há muito tempo.
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Gabriela Kimura
à s
15h36
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Da série VARAIS

Papai me ensinou a rezar o terço. Freqüente. Dos doze aos quinze.
Não pago mais dízimos. Não acredito mais em preces.
Ilustração: Paulo Stocker
Texto: Gabriela Kimura
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Gabriela Kimura
à s
14h13
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Da série VARAIS

Você, uma mitologia grega. Eu, um desastre ocidental.
Ilustração: Paulo Stocker
Texto: Gabriela Kimura
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Gabriela Kimura
à s
13h31
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Da série VARAIS
Não me lembro de ficarmos em tempo algum com medo da chuva. Só não sabíamos ainda o que era ser tempestade.
Ilustração: Paulo Stocker
Texto: Gabriela Kimura
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Gabriela Kimura
à s
17h05
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PAPAIA
Querido diário,
Ontem desarrumei as gavetas de Camila. A tonta nem desconfia. Pensa que foi a Dona Gertrudes. Vive implicando com a coitada e dizendo que ela fede. Camila não tem modos. Nem a Dona Gertrudes, que limpa as narinas nos panos da copa.
Mamãe não liga. Anda ocupada com os vestidos que vai usar quando o moço de chapéu vier aqui em casa. Ele cheira a perfume caro. Não é como as lavandas que mamãe tem sobre a cômoda bamba do quarto. E vive enchendo a mamãe de manchas e vestidos. E de cheiros pela casa.
Mamãe pede para Gertrudes fazer café e bolo para o moço. Camila gosta de levar a bandeja e de vestir um short branco que mamãe odeia. Ela faz de propósito. E olha esquisito para o moço. Mamãe diz que ela é oferecida. Acho que ela é isso mesmo. Eu é que não me meto. Gente grande fede. A Camila ainda não é grande, mas ela também fede. Ela acha que já é mocinha. Eu acho que ela é uma criança que fede.
Ontem coloquei um saco de lixo na cabeça. Vi um cara fazendo isso num filme. É suicídio. Ninguém gosta de falar dessas coisas. Uma vez eu perguntei pra Gertrudes se ela conhecia alguém que tivesse feito o suicídio e ela fez o sinal da cruz. Eu não gosto de reza. Nem de Jesus Cristo. Nem de Gertrudes. Nem de Camila. Mamãe também não gosta. Ainda bem.
Mamãe diz que eu me pareço com ela. Que sou doce e comportada e que os moços não gostam de meninas vulgares como a Camila. Não sei muito bem o que é isso, mas não quero ser vulgar. Eu queria mesmo era ser suicida.
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Gabriela Kimura
à s
17h13
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O TORTO
Conheci a raiva aos sete. Sem aviso, no susto, na contramão. A raiva com fogo nos cabelos, de calças curtas, pés no chão. Atendia pelo nome de João. Molequinho enxerido, aquele. Que voaria pelas goiabeiras, mundo assim de ponta-cabeça, atalhos e delicadezas.
Eu, galho torto, catarro por um triz. Mirrado no recheio, perna, bamboleio, querendo a casa, a asa, o traço de um abraço com único endereço. A raiva tem seu apreço. Seu veio. Seu começo.
– Vem moleque, sobe logo!
– Sei não...
–Tá com medo?
– A mãe não vai gostar...
– Então fica. Cagão!
Toda afronta é uma isca. E lá foi ele a escalar galho por galho, caule, suor, folhas, raspão. Veloz num foguete, peito estufado, rosto vermelho, cor do medo e da coragem. Coração. Pulando no peito de menino que chega com orgulho lá no topo e crava uma bandeira como quem diz: “Agora essa árvore tem meu nome e sobrenome”. Transformando o desafio em cusparada. Dura pouco e é quase nada.
– Vê lá, hein, moleque. Não vai ficar aí na ponta. Vai cair daí...
Mexer com o orgulho de um garoto é dar a ele a infinita capacidade de se ferrar sozinho. Desastroso bailarino. Que se precipita na graça. A despencar em câmera lenta. Não conhecerá as avencas. Que mamãe terá um dia. Depois que cicatrizar as tais feridas. E voltar ao número ímpar e certeiro do galho torto que voltará a florir.
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Gabriela Kimura
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15h58
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BOA NOITE, BOM DIA
Papai foi embora da nossa casa levando caixas, malas e mais da metade da mamãe. Mamãe anda tão magrinha que penso mesmo que papai nunca mais vai devolver aquele tanto da mamãe que a deixava mais bonita. Agora ela anda pela casa de camisola e não cuida mais das plantas, não atende a campainha e queima o feijão.
E parece que esqueceu de brigar com os relógios e com os meus modos. Porque mamãe já não liga se hoje tem escola, chuveiro, roupa limpa, pasta nos dentes. Mamãe, penso, esqueceu da gente.
Porque papai saiu com pressa. Tanta que deixou a Margarida. Acho que adulto é assim, fica esquecido com o tempo. Papai gostava muito da Margarida. Mais do que da mamãe. Pelo menos é o que eu ouvia. Todo dia papai pegava a Margarida no colo, escovava os pêlos, olhava os dentes, dava comida, tirava o cocô. Boa noite e bom dia. Eu já quis ser como a Margarida. Também penso que cachorro é mais feliz.
Mamãe gostava do papai. Papai da Margarida. E agora, Margarida gosta de mim. Que sou o papai pra Margarida. Cuido da comida, dos pêlos e brinco de dar vacina. Até ficar grande e esquecido. E ir embora levando caixas, malas e mais da metade da Margarida. Que vai ficar magrinha, fazer cocô por toda a casa e ficar como a mamãe. Sozinha.
Quando eu crescer não vou ter memória. Nem fotografia. Boa noite e bom dia.
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Gabriela Kimura
à s
11h58
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NÃO FOI NADA
"Não foi nada" ela dizia, enquanto soprava um vento morninho e olhava com carinho infinito.
"Um sanguinho de nada" ela continuava. "Você precisa tomar mais cuidado, sim, coração?"
E ele balançava a cabeça na duvidosa afirmativa repleta de promessas.
Era a terceira vez só naquela semana. E ela voltava com ternura:
"Como é que uma coisinha assim tão pequena é capaz de se ferir tanto? Tente se controlar nas brincadeiras, coração. Pela mamãe, você jura?"
Ele jurava. E sorria. E queria que aqueles ferimentos ficassem ali com a sorte dos bons ventos. Os cabelos dela pinicando joelhos. Cócegas. Tropeços. A colorir as rachaduras de vermelho mercúrio, que a dor era só felicidade. A dor tem vontades. De ataduras, ardências, febres, queimaduras. A dor é desejo que não tem cura. Exige e quer repetição. A mãe não entenderia. Enquanto isso ele jurava. Só para tê-la bem perto, brincando de fazer mágica.
"Veja como é fácil, coração. Não disse que não foi nada? E nem doeu, doeu? Então. Agora dê um beijo aqui e vá brincar lá fora. Mas sem machucados, ouviu?"
Ele a correr para o quintal sob orgulhosa vista, que finda num horizonte onde o mar não alcança. Nem corrida de criança. Que voa. Longe. E que arrisca outras brincadeiras. De ferir perninhas, de cortar asinhas, de ralar os cotovelos, de manchar as boas condutas da infância. No gozo precoce de ouvir: “São apenas crianças”. A fechar os olhinhos no eco que se repete. “São apenas crianças”. “São apenas crianças”. “São apenas crianças.”
Que embalam os carrinhos, o tiro ao alvo, a roda-gigante. E assim serão daqui por diante.
Escrito por
gakimura
à s
21h14
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