NÃO FOI NADA

 

 

"Não foi nada" ela dizia, enquanto soprava um vento morninho e olhava com carinho infinito.

 

"Um sanguinho de nada" ela continuava. "Você precisa tomar mais cuidado, sim, coração?"

 

E ele balançava a cabeça na duvidosa afirmativa repleta de promessas. 

 

Era a terceira vez só naquela semana. E ela voltava com ternura:

 

"Como é que uma coisinha assim tão pequena é capaz de se ferir tanto? Tente se controlar nas brincadeiras, coração. Pela mamãe, você jura?"

 

Ele jurava. E sorria. E queria que aqueles ferimentos ficassem ali com a sorte dos bons ventos. Os cabelos dela pinicando joelhos. Cócegas. Tropeços. A colorir as rachaduras de vermelho mercúrio, que a dor era só felicidade. A dor tem vontades. De ataduras, ardências, febres, queimaduras. A dor é desejo que não tem cura. Exige e quer repetição. A mãe não entenderia. Enquanto isso ele jurava. Só para tê-la bem perto, brincando de fazer mágica.

 

"Veja como é fácil, coração. Não disse que não foi nada? E nem doeu, doeu? Então. Agora dê um beijo aqui e vá brincar lá fora. Mas sem machucados, ouviu?"

 

Ele a correr para o quintal sob orgulhosa vista, que finda num horizonte onde o mar não alcança. Nem corrida de criança. Que voa. Longe. E que arrisca outras brincadeiras. De ferir perninhas, de cortar asinhas, de ralar os cotovelos, de manchar as boas condutas da infância. No gozo precoce de ouvir: “São apenas crianças”. A fechar os olhinhos no eco que se repete. “São apenas crianças”. “São apenas crianças”. “São apenas crianças.”

 

Que embalam os carrinhos, o tiro ao alvo, a roda-gigante. E assim serão daqui por diante.



Escrito por gakimura às 21h14
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