Conheci a raiva aos sete. Sem aviso, no susto, na contramão. A raiva com fogo nos cabelos, de calças curtas, pés no chão. Atendia pelo nome de João. Molequinho enxerido, aquele. Que voaria pelas goiabeiras, mundo assim de ponta-cabeça, atalhos e delicadezas.
Eu, galho torto, catarro por um triz. Mirrado no recheio, perna, bamboleio, querendo a casa, a asa, o traço de um abraço com único endereço. A raiva tem seu apreço. Seu veio. Seu começo.
– Vem moleque, sobe logo!
– Sei não...
–Tá com medo?
– A mãe não vai gostar...
– Então fica. Cagão!
Toda afronta é uma isca. E lá foi ele a escalar galho por galho, caule, suor, folhas, raspão. Veloz num foguete, peito estufado, rosto vermelho, cor do medo e da coragem. Coração. Pulando no peito de menino que chega com orgulho lá no topo e crava uma bandeira como quem diz: “Agora essa árvore tem meu nome e sobrenome”. Transformando o desafio em cusparada. Dura pouco e é quase nada.
– Vê lá, hein, moleque. Não vai ficar aí na ponta. Vai cair daí...
Mexer com o orgulho de um garoto é dar a ele a infinita capacidade de se ferrar sozinho. Desastroso bailarino. Que se precipita na graça. A despencar em câmera lenta. Não conhecerá as avencas. Que mamãe terá um dia. Depois que cicatrizar as tais feridas. E voltar ao número ímpar e certeiro do galho torto que voltará a florir.