PAPAIA
Querido diário,
Ontem desarrumei as gavetas de Camila. A tonta nem desconfia. Pensa que foi a Dona Gertrudes. Vive implicando com a coitada e dizendo que ela fede. Camila não tem modos. Nem a Dona Gertrudes, que limpa as narinas nos panos da copa.
Mamãe não liga. Anda ocupada com os vestidos que vai usar quando o moço de chapéu vier aqui em casa. Ele cheira a perfume caro. Não é como as lavandas que mamãe tem sobre a cômoda bamba do quarto. E vive enchendo a mamãe de manchas e vestidos. E de cheiros pela casa.
Mamãe pede para Gertrudes fazer café e bolo para o moço. Camila gosta de levar a bandeja e de vestir um short branco que mamãe odeia. Ela faz de propósito. E olha esquisito para o moço. Mamãe diz que ela é oferecida. Acho que ela é isso mesmo. Eu é que não me meto. Gente grande fede. A Camila ainda não é grande, mas ela também fede. Ela acha que já é mocinha. Eu acho que ela é uma criança que fede.
Ontem coloquei um saco de lixo na cabeça. Vi um cara fazendo isso num filme. É suicídio. Ninguém gosta de falar dessas coisas. Uma vez eu perguntei pra Gertrudes se ela conhecia alguém que tivesse feito o suicídio e ela fez o sinal da cruz. Eu não gosto de reza. Nem de Jesus Cristo. Nem de Gertrudes. Nem de Camila. Mamãe também não gosta. Ainda bem.
Mamãe diz que eu me pareço com ela. Que sou doce e comportada e que os moços não gostam de meninas vulgares como a Camila. Não sei muito bem o que é isso, mas não quero ser vulgar. Eu queria mesmo era ser suicida.
Escrito por
Gabriela Kimura
à s
17h13
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