QUANDO A TERRA DESAPARECER

Quando a terra desaparecer, talvez, quem sabe, nós não estejamos mais aqui. Eu sei, Alfredo, que você não acredita nestas coisas. Mas digo a você: não somos imunes a estas ações da natureza. Por isso insisto tanto nesta coisa que você chama de “fúria desenfreada”. A terra, meu caro, anda cheia até às tampas. E mesmo pessoas, como nós, correm o risco incômodo de sucumbir aos arroubos das enfermidades.

 

Sim, minha saúde está em perfeito estado. O que não está no eixo é essa sua cara aí perseguindo a gente o tempo todo. Você sabia que a Alice já reclama da vida? E ela tem apenas seis, seis anos! Algumas crianças nascem assim, com os olhinhos repletos de inconformidade. Lembra? Desde o peito até o bocejo.

 

Hoje sinto que os ânimos recomendam cautela. Mas quem tem o dom do recuo, da paciência completa? Veja se tem cabimento. Agora ela diz que chora de felicidade. Dessa intensidade eu não entendo. Nossa menina, um pequeno aparelho no máximo volume. Minha idade anda avançando e, se ainda me lembro, a sua também.

 

Penso que, bem lá no fundo, ela deve ter puxado algo de nós. Algo que perdemos na cruel velocidade do tempo. Sinto saudades da vontade de matar nossos desejos. Um a um. Como nas melhores batalhas. Sim, daria tudo para ver um horizonte sangrento. Mas você, Alfredo,  não deixa. E insiste em nos perseguir pelos corredores. Usando a pior das desculpas: esta doença que você insiste em deixar que mande na gente.

 

Alice daqui a pouco será uma mocinha. E com a fome de um batalhão deixará esta triste casa para sempre. Ficaremos neste silêncio? Não creio. Porque acredite: quando a terra desaparecer será por minha competência. A cerrar, com muito gosto, esses olhos que não querem reconhecer que estão mortos há muito tempo.

 



Escrito por Gabriela Kimura às 15h36
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