RANCOR

Não sou seu pai nem a revista molhada sobre a banqueta do seu banheiro. Não quero ser o cinzeiro que mobília a sua casa na espera de visitas. Não tenho mais paciência para carregar tanta culpa daqueles tempos que você insiste em dizer que eram melhores do que em hoje em dia. Que fique claro, como sempre foi a minha conduta, das minhas manias, dos meus rituais e, agora, da minha vida. Essa que você não entende. Entende? Que agora eu tenho fogão, panela quente e que meu afeto não é ausente. Mas é condimento do meu bem querer. De gaiolas nunca gostei. E, que eu saiba, nem você. Então me deixe viver. Assim no clichê dos sofás, das tardes com sexo, pipoca e risadas, da noite que quer acabar cedo, da preguiça dos lugares alheios, da minha idade avançada. Quero estar velhinha, chata, escondida. Quero escolher aonde vou, o horário de sair e entrar. Sabe... Ando com preguiça da mocidade, dessas atrocidades de “não-sei-bem-o-que”. Sim, já fiz tudo isso, mais o verso, inverso e não pretendo sujar os pratos que comi. Volto a dizer: o tempo é meu de direito. É certo. A minha paz depende daqueles que eu amo. Se não entende, não pretendo mesmo ser didática. O que não posso é fazer vendaval em casa, criar tempestades no meio da sala, alagar a cozinha. Isso eu não posso. Não insista. Em programa alheio, convidado não insulta o dono da casa. Nunca criei atalhos para quem eu sou. Respeite-me. Não sou mulher de recados, não me aborreça com suas verdades, com conclusões mal fundadas. Essa é uma rua errada. Não cause acidentes impensados, por favor. Desacelere e eu freio. Ninguém aqui quer atropelamentos, não é mesmo? Por enquanto o parque está fechado para reparos.

 



Escrito por Gabriela Kimura às 14h01
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