PEIXE

– Pula, logo, Marcinho!

 

E Marcinho não ia. Tinha medo, o cagão. Marcinho, o leproso da sala, o remelento, filhinho da mamãe, o cagüeta.

 

Fácil mesmo era limpar as narinas nas mangas da camisa amarela, flanelinha vagabunda, comentavam as mães. Mas ele não se importava com os risinhos maternos nem mesmo com o deboche insistente dos outros meninos.

 

Vento nos cabelos com medo de cloro e bactéria. A olhar, tristonho, água e azulejo, mãos e pés envelhecidos nos corpos das crianças que se debatiam histéricas.

 

Marcinho queria mesmo era voar. Que de ar tinha ânsia assim desenfreada. Em nuvem carregada, quem sabe tripudiar sobre os sonhos dos pequenos. Ou fugir num pé-de-vento, peixe-relâmpago rabiscando no céu uma cicatriz bem no ventre daquela imensidão que insistia em ser tão bela.

 

Que ele assim menino sem escamas, frágil que doía, de sonho e insistência já entendia como ninguém. A escalar, degrau por degrau, as alturas, que mesmo tal candura tende, tímida, ao exibicionismo.

 

– Olha lá, é o Marcinho!

– Mas o que é que esse retardado está fazendo ali?

– Desce daí, ô cagão!

 

E, pela primeira vez, Marcinho voou.

 

 

 

Ilustração: Stocker



Escrito por Gabriela Kimura às 14h52
[] [envie esta mensagem
] []