JONAS E A BALEIA

Para Floquinho

 

 

Lembro de muitas cenas distintas: um moleque com uma franja na testa, a cara redonda na porta perguntando se alguém tinha visto seu bongô. Um bongô que foi do seu avô. Todo mundo riu e achou aquela figura engraçada. O sotaque mais arranhado do mundo, denunciando o que eu já previa. O cara era carioca.

 

Sim, eu e os meus pré-conceitos. Folgado, pensei. E era. Viu-me um dia com o violão na mão (sim, na época eu vivia com um violão a tiracolo) e pediu: “toca aí Mano Velho, da Marisa Monte”. Oi? Não conheço essa música, respondi. “Conhece sim, já te vi tocando”. Depois de muito tutano, fui me tocar que a música que o garoto pedia era “Sobre o tempo”, do Pato Fu. Rimos muito aquele dia.

 

Mas voltemos ao folgado. Conheci esse cara num encontro de comunicação. Um frio de doer, em Florianópolis. Todo mundo querendo conhecer quase todo mundo. E ali mesmo, faltando quase dois meses para o meu aniversário (quem me conhece sabe que espero o ano inteiro por essa data), decidi que iria fazer uma festa em Campinas. Chamei o cara e seus dois amigos. E num é que eles apareceram? De mala e cuia, bongô, violão, cobertas, instrumentos. Meu pequeno apartamento de estudante virou, de repente, uma imensa república.

 

Dali para frente, nos tornamos amigos. Ele sempre que me via ou falava comigo ao telefone, adorava me irritar dizendo que o Papa era carioca, que o Romário era carioca e como as coisas boas ficavam sob e sobre o Cristo. Deus-me-livre, eu dizia.

 

Um dia, reclamei do preço da água de coco. Era o tipo de “deixa” que ele agarrava com as duas mãos. “Aqui no Rrrrrrrio é muito barato. Temosssssss água de coco quase de graça”. Retruquei, desdenhei. De manhã, o cara apareceu numa Saveiro quadrada e lotada de coco na porta da minha casa. O maluco dirigiu do Rio até Campinas só para me provar que estava certo. Descarregou a mercadoria em casa e ainda me deixou na faculdade. Depois, foi embora.

 

Essa e outras histórias faziam da nossa convivência, algo irritantemente delicioso. Cuidava do meu apartamento, de mim, mesmo de longe. Insistia em chamar a Sushi, minha tartaruga, de Susi. Sempre.

 

Um dia me ligou dizendo que queria que eu fosse madrinha do seu casamento. Naquele tempo ele sabia que eu torcia o nariz para esse tipo de cerimônia. Aceitei. A última vez que o vi foi aqui mesmo em São Paulo. Nessa época acho que eu ainda estava em BH. Almoçamos numa cantina e rimos pra cacete.

 

Isso tem uns 4 anos. Esse é o tempo que deixamos a correria tomar conta da gente. E realmente acreditamos que algumas coisas e pessoas são para sempre. Não sou de fazer sensacionalismo e tampouco gosto de homenagens. É que algumas histórias, quando são boas, devem ser compartilhadas. Temos muitas delas. O casamento dele não aconteceu. A vida tem dessas coisas. Alguns amores acabam antes de se tornarem chatos e penosos. Ele e ela, acredito, foram grandes amigos.

 

E foi ela quem pediu que me avisassem que o garoto carioca, folgado e com todos os “erres” entre os dentes, foi tocar bongô em outras bandas navegando, quem sabe, em cima de uma grande baleia branca. Tchau muleeeeeeeeeeeeque.



Escrito por Gabriela Kimura às 14h37
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