LIÇÃO DE CASA

 

Eu gosto mesmo quando você rasga o verbo e despedaça todas as palavras sem nenhuma cerimônia. E desconstrói cada uma das minhas frases gramaticalmente irretocáveis para fazer poema concreto. Mesmo quando insiste em levantar a  saia e descer a  minha calcinha, consegue ainda ler nas entrelinhas.

 

Foi você de fato que me ensinou a jogar com as palavras, lembra? Fez trovejar paradoxos, algumas antíteses sacanas, outros tantos hiatos estridentes. Pois os guardei todos entre os dentes. Pra fincar assim na tua musculatura. Que é pra te mostrar que eu aprendo rápido. Minha digestão desarmonizando a tua biologia. E que agora te faz tremer com tanta verborragia.

 

Aprendi as tais elipses. E já sou capaz de conjugar qualquer tipo de verbo. Pra fazer sacanagem com a tua língua. Para embolar o teu português meio sujo, meio franco, meio incrédulo. Há muito abolimos os provérbios e abominamos as vãs filosofias. Prosa fraca, raso verso.

 

É. Eu quero mesmo é matar a tua língua.



Escrito por Gabriela Kimura às 17h52
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